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60-70-120

Eu gosto da imperfeição
De menos baton
De uma palavra maldita
De risos abertos
Ás vezes fora de tom

De uma gordurazinha
De uma cicatriz
Com falta de verniz
E gosto de abraços
Com cheiro a suor

Eu gosto do prato cheio
E de três horas à mesa
Nos vapores da conversa
Imprópria para o colestrol
Mas própria da natureza

Das linhas que se entortam
Do puto que não se cala
De uma voz que se levanta
Mesmo no meio da sala

Dispenso cintura no jogo
Correções da dentadura
Quem põe água na fervura
Só para não se queimar.

Da incontinência no amor
De manchas no cobertor
Eu gosto de falhas no disfarce
Dentro de casa e na rua
Uma só cara na face

Não gosto disto

Tenho uma impressão no peito
Formigueiros no joelho
Uma dor abdominal

É qualquer coisa
Aqui atrás na cabeça
Passa-me pelo artelho
De uma artéria principal

Vai-me à virilha, ao tornozelo
Faz-me a perna num novelo
Mal me consigo mover

Mas são as costas
E a ponta do nariz
Mesmo aqui perto do osso
Que não param de doer

Um dia destes
Fui falar com um doutor
Eu por dentro bem fraquinho
Mas por fora muito forte

“é qualquer coisa
Aqui atrás na cabeça
Mais parece um camafeu
Mais parece a própria morte!”

O “hóme” então fez-me exames competentes
Às costelas e aos dentes
Rins, dedinhos e dedão

Viu-me as entranhas
Do avesso e do reverso
Revirou-me a roupa toda
Foi do pêlo ao coração

Como é possível
Um doutor tanto cruel?
Que não me descobre nada
Que não me dá a razão?

Estou muito triste, muito ausente e deprimido
Nem sequer uma borbulha
Nem uma constipação

Agora assim, já não tenho companhia
Fico com tempo a mais
Para pensar em viver

O que é que eu penso, o que é que eu digo, o que é que eu sinto?
Alguém pode explicar-me
Como é que eu hei-de fazer?

Estou doente? Devo estar!
Estou carente? Concerteza!
Estou contente? Nem pensar!

Tenho 20 amigos que já me chamam “dói dói”
Tenho uma mulher que estou prestes a deixar
Tenho 30 filhos que já não me chamam pai
Tenho uma maleita difícil de abandonar

Sonso

Sou um gato maltês, mentem que sou português
Sou uma espécie de camaleão
Mas de má raça

Versado em trapaça
Atravesso no vermelho
Finório até ser velho

Iludo inocentes
Alicio novos crentes
Toureio os impostos
Cuspo no chão

Não olho a meios
Para os fins
Eu sou a evolução!
Tenho cara de ladrão?

Se não for pra mim é para alguém
E sou eu que quero estar bem!

Quero cá saber da razão
Civismos e outros ismos
Cidadania, se der jeito
Altruísmo, aos domingos
Abraço dolosos
E os que sabem roubar

Nós é que somos os maiores
E se o país for ao fundo
Não faz mal, eu sei nadar

Tango da Neblina

Preces ao vento
Sai-me o Leste cá de dentro
Chora a pele de saudade
O Norte ficou para trás

Vem nevoeiro
Mas que destino certeiro
Fez-se o sol de pouca dura
Não se sentia capaz

A bruma engana
É mulher de muita manha
Até no amor se entranha
Não se deixa enganar

Nunca se ausenta
Nem de manhã, nem de noite
Em qualquer dia do ano
Sai à rua para dançar

Pobres ilhéus
Sitiados no escuro
Sofredores, desconjuro
À espera de a ver chegar

Sentem-se irados
Maltrapilhos, maltratados
Não vêem enevoados
O prazer que lhes quer dar

É que o costume
é mais negro que o negrume
Mata o contraste da vida
Não o deixa revelar

A alegria
De não se ver todo o dia
O sol em plena euforia
A se querer pavonear

As LEtRaS

Canção do velho

Antigos velho homens deformados
Parados, por maldição
Do tempo dos relógios atrasados
Inertes, no meio da confusão

Profetas dos tempos da juventude
Choram as rugas da fadiga da razão
Se eu fosse agora menos 20 anos
Parava a vida na palma da minha mão

Saudades do que resta na memória
Dos risos, da terra do meu poder
Das coisas com resposta sempre pronta
De não ter que saber para dizer

Sou outro, poço fundo da verdade
Não falo, não pareço e não me dou
Deixei passar os ventos desta tarde
Já sei de onde vim e para onde vou

Mas continuo novo como dantes
No gosto por poder olhar e ver
A vida como bola colorida
A vida que acaba por morrer

Fado do desencontro

Uma casa
Meia luz para alumiar
Duas sombras vadias convivem
Para não se apagarem

Carantonhas
São servidas sem anestesia
Tanto ele como ela se esforçam
Pra passar mais um dia

Mas tudo se esquece
Toda a vida aparece
Na caixa brilhante

Só que chega o dia
Que falta a energia
Fica breu de repente

Então tudo bem?
Não é que lhe interesse o assunto
Mas é como falar com um defunto
Só para o silêncio apagar.

Mais ou menos
Que fado malino o dela
Desencontros a dois e depois nada resta
para encontrar

E eis que ele percebe
E ela que se atreve...

Olha que coisa mais chata
Queres ver que o burro agora percebeu

Tu não me chames de besta
Quem deve chamar não és tu sou eu

Tu sabes lá o que deves, ou escreves,
ou achas que tens pra dizer!

Não me tires do sério se não tu vais ver!

Vou ver um homem tão fraco, tão feio, tão chato, tão ignorante

Olha-me a gorda minorca
Agora que grita acha-se gigante

Não dou ouvidos a machos cambados
sem força na estrutura

E eu não dou ouvidos a lesmas com dentadura!

Tu nem com dentes te safas
Por isso te abafas em copos de três

Tenho que me embriagar
Pra não me assustar com aquilo que és

Dou-te com tantas panelas
E vou-te às canelas até as gastar
Onde é que está a faca e o meu alguidar!

E assim se fez uma noite
De pura agonia
Em que nada restou

Deram-se cabo das vidas
Abriram-se as feridas
De quem já se amou

Deram um último abraço
E na dor um regaço
Acabou por surgir

Que o dia veio mais cedo
Para os ver sorrir

Terra de nenhures

Acabado de atracar
Numa terra de nenhures
Com o mar todo ás costas
Com a voz perdida algures
Desço em voo o passadiço
Tenho sede de viver
Quem quiser que me acompanhe
Quem quiser que fique a ver

Mas vai daí, olhares imensos
Vai daí o burburinho
Vai daí ninguém se ajunta
Ninguém passa no caminho
Em que terra é que me encontro?
Que gentes estranhas são estas?
Ou o mar me deixou tonto
Ou dei à costa das bestas!

As caras todas crispadas
Cada um em seu cavalo
Cada qual mudo de vida
Todos me passam ao lado
Concentrados na ambição
Metidos nas suas tocas
Cheios de sono e de pressa
Escorbuto em vez de bocas

Aqui não me oriento
Sem sol para me seguir
Vou deitar velas ao vento
Voltar onde eu quis sair
Mais vale a furia das vagas
Os garajaus embriagados
Companhia desta gente?
Antes só que acompanhado.

Valsa da carroça

Nas bandas do mar de cima
Num dia de temporal
Dei comigo acostado
Nas couves do meu quintal

Encontrei um caracol
Puxei-lhe pela badana
“És capaz de me dizer
De onde veio esta bezana”

O bicho que era discreto
Repondeu-me de mansinho
“Puxa pela mioleira
Vais encontrar o caminho”

Com a cabeça escachada
Lá me lembrei do tarraço
Do Faial a linguiça
Do Pico veio o bagaço

Acabado o jantar
Foi parar ao seu José
E quando tocou o sino
Começou-lhe a faltar pé

Conheci uma pequena
No caminho para o Pim
Mas quando saí da praia
Já só me lembro de mim

A subir uma ladeira
Lá para a rua de trás
As pernas numa lanzeira
O bucho cheio de gás

Quando cheguei ao local
Afundei-me n’algazarra
Encharquei-me até aos ossos
Com a malta dos bandarra

Aquilo é gente malina
Fiquei todo azamboado
Fui de gatas para baixo
Ver se ia a outro lado

Corri “casas” e “clubes”
Acabei no cachorral
Fui de cadela pra casa
Num passo sentimental

Juro pelo meu santinho
Nunca mais me vou esticar
Nas noites de temporal
Fico em casa a costurar


 

Má sorte

Eu que sou profissional
Nunca saio antes das 5
Eu que só digo o que sinto
Nas mesas dos meus cafés

Eu que faço aquilo que posso
Que nem sequer vou votar
Que mal digo tudo e todos
Sempre que posso falar

Eu que sei aquilo que digo
Sem nunca ter perguntado
Eu que levo o que encontro
Achado, perdido ou roubado

Eu que me esforço tão pouco
Para ver se não me canso
Eu que com musica paro
E que com barulho danço

Eu que ponho o lombo a jeito
Para levar umas festinhas
Troquei por microondas
As queixas que são as minhas

Eu que não quero ganhar
Mas também não sei perder
Eu que culpo sem desculpa
Quem me merece vencer

Eu que vejo televisão
Eu que quero ser feliz
Eu que para ter o que quero
Hipoteco o meu país

Eu que minto a toda a gente
Para me sentar na cadeira
Que digo “sou competente!”
Com requintes de rameira

Eu que vendo aquilo que posso
E que compro a quem vender
Que nunca quero em conjunto
Quero-me só no poder

Eu que maldigo esta terra
Sem pudor, nem privação
Eu que me rio das cores
De toda e qualquer nação

Eu que não gosto de mim
Porque não sei quem eu sou
Eu que para ter o que quero
Até às bestas me dou

Quem tem culpa são os outros
Quem tem culpa é Portugal
Quem tem culpa não sou eu
Que se mude quem está mal!

Sabem lá

Dizem que lhes é difícil
Conseguir perceber
Como vivemos tão sós
Sem nada para fazer

Dizem que a ilha é pequena
Pequena de mais
Sem estradas prédios e pontes
E espaços comerciais

Dizem que aqui é difícil
Conseguir viver
Dizem que a bruma é espessa
Não nos deixa ver

Que estamos presos ao mar
Que não se sente o Verão
Que as caras são sempre as mesmas
Sabemos sempre quem são

Mas eu vivo
Numa ilha sem sabor tropical
Tenho tudo o que preciso
Desde o bem até ao mal
E p’ra temperar a vida
Não há melhor que este sal

Porque eu vivo
Numa ilha sem sabor tropical
Sem palmeiras sem os cocos
E sem pena capital
De me morderem os pés
Na pressa habitual

Dizem que faz impressão
Não poder viajar
Que só se for de avião
Quando o vento o deixar

Que comprar é complicado
Não há nada para ver
Que o tempo é demorado
Não se deixa vender

Dizem “vocês qualquer dia
Ainda vão todos ao fundo!”
De tremor ou de vulcão
De praga de fim do mundo

E a gente cá vai sorrindo
Sem nada para dizer
É que não há pior cego
Que aquele que não quer ver

Porque eu vivo
Numa ilha sem sabor tropical
Rodeado da frescura
No seu estado natural
Sem a mania das modas
Do progresso actual

Sim eu vivo
Numa ilha sem sabor tropical
Com praias de areia escura
Sem centro comercial
Onde me tratam por tu
Com sotaque especial

Um dia saio de casa

Um dia saí de casa
Só para ver como é que era
Disse-me a mim até já
Deixei tudo à minha espera

Abri a porta, estaquei
Tanta gente e confusão
Pareciam os filmes da noite
Que passam na televisão

Criancinhas sempre aos pinchos
E gente a conversar
Uns que vinham lá de um sítio
Outros que iam trabalhar

Muitos deles a sorrir
e outros ainda a chorar
Como a novela das 6
Ou o concurso do jantar

Era ver a relva verde
E as árvores a crescer
Era a chuva, era o sol
Só coisas de se temer

Um dia saio de casa

Havia correntes de ar
Doenças para ali à solta
Uma mulher a cantar
Um velho a fazer batota

Vi também um tal casal
Aos beijos ali na rua
O homem todo ofegante
A mulher já meia nua

Pareciam aquelas séries
Com bolinha no ecrã
Que vejo a comer tremoços
Enterrado no divã

Avistei filhos e pais
Amigos, de braço dado
Olhei para coisas a mais
Fiquei muito incomodado

Acabei por não sair
O perigo andava à espreita
E eu com a minha casa
Já com a caminha feita

Não preciso de ninguém
Nem preciso de viver
Fico aqui no meu casulo
Até conseguir morrer

Zapping

Você está infeliz?
Dorido de uma vida comprida?
Com tempo para ocupar?
Não se ponha a pensar!
Não ouse falar!
Muito menos fazer esforço!
(A gente atira-o para o poço
Sem ter que se esforçar...)

Veja bem que coisa linda
O zapping da anunciação
Só tem que mexer um dedo
Para ligar a televisão

São coisas de outro mundo
Também podem ser do seu
Mas tem que se portar bem
Se quiser ganhar o céu

E o céu é o produto
Que tem que adquirir
Para nesse minuto
Voltar a poder sorrir!

São coisinhas tanto lindas
Porcarias de encantar
Todas boas para a saúde
Para a terra e para o mar

São de plástico ou metal
De vidro ou tyrilene
Ou de estrume (não faz mal)
De carne ou neoprene

São boas para vestir
São boas para mastigar
Também dão para conduzir
Até dão para matar!

São coisas que nos protegem
Dão calor occipital
Dão vida às cores da roupa
E à flora intestinal

Seguram as nossas casas
E a triste incontinência
Prendem os putos no quarto
Anulam a resistência

 
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